Trabalho de Português

Dias Perfeitos

Raphael  Montes

"Amor e obsessão separam-se por um fio tão fino que ninguém sabe ao certo onde um termina e o outro começa."

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Final I
Dias Perfeitos

A Sobrevivente

Há histórias que sobrevivem porque alguém as reescreve.
Mesmo quando a verdade ficou enterrada.

"O hospital cheirava a éter e a segredos por confessar."

Téo acorda deitado numa maca de hospital. A luz branca do teto é o primeiro sinal de que está vivo — ou pelo menos de que ainda existe. Não demora muito até que a porta se abra e um delegado entre, caderno na mão, olhar apurado, passos calculados. O interrogatório começa.

Não é apenas um. São muitos interrogatórios, repetidos com a persistência de quem sabe que algures há uma fissura na história contada. O delegado investigava há já algum tempo o desaparecimento de Breno, e as respostas de Téo, por mais bem construídas que sejam, não convencem totalmente. O silêncio entre as perguntas diz mais do que as palavras.

"O delegado olhava como quem lê nas entrelinhas. E as entrelinhas de Téo estavam escritas a sangue."

Pouco depois, Téo recebe alta. O primeiro impulso é ir ver Clarice. Ela está em coma — imóvel, presa entre o mundo dos vivos e o silêncio de um outro lugar. Os pais de Clarice estão lá, e a revolta nos olhos deles é palpável. Exigem explicações. Exigem verdades. Mas, por uma dessas ironias do destino que só o tempo explica, acabam por fazer amizade com Téo. A dor partilhada tem essa estranha capacidade de aproximar.

· · ·

Mais tarde, surge outro interrogatório. E é neste diálogo que um nome ressurge do passado como uma faca velha: Gertrudes. O nome da velha que transportou Téo e Clarice até à Ilha Grande. O delegado pronuncia-o com uma calma cirúrgica, como quem coloca uma peça num tabuleiro que já estava quase completo.

O nome espanta Téo. Os nervos traem-no. E num momento de descontrolo — ou talvez de alívio —, acaba por revelar tudo à mãe de Clarice. Toda a verdade. A mãe é advogada. Ouve tudo em silêncio, e quando fala, é com a frieza pragmática de quem sabe o que está em jogo.

"Ela detestava Breno há muito tempo. E Téo, de alguma forma torta, parecia-lhe a única pessoa que tinha verdadeiramente amado a filha."

Tentará o seu melhor para que Téo não seja descoberto. Está do lado da filha — e, por extensão, do lado dele. A aliança mais improvável formou-se nos corredores de um hospital.

· · ·

Numa outra visita ao hospital, a paranóia volta a apossar-se de Téo. A mente dele é um lugar onde o medo e a obsessão vivem em simbiose, e nessa tarde sombria, ele desconecta o respirador de Clarice. O arrependimento chega imediato — brutal, sufocante. Está convicto de que será finalmente descoberto, de que tudo acabou.

✦ ✦ ✦

Mas os médicos interpretam o gesto de outra forma. Téo é estudante de medicina — alguém assim não mata, tenta salvar. O instinto clínico teria sobreposto qualquer outra intenção. Clarice sobrevive.

Só que ela acorda sem memórias. O passado apagado como páginas em branco. E Téo, com a mestria fria de quem construiu toda a sua existência sobre ilusões, conta-lhe uma história. Uma história de como se conheceram. Uma história falsa — mas contada com uma ternura tão convincente que Clarice acredita. E acaba por se apaixonar por ele, de novo, pela primeira vez.

"Ela olhava para ele como se fosse a única coisa real num mundo que tinha deixado de fazer sentido. E talvez fosse. De um jeito errado, mas era."

Clarice engravida. Numa consulta de maternidade, descobrem que será uma menina. O futuro, que parecia impossível, abre-se de repente numa sala branca com o som suave de um coração a pulsar.

"Um nome lindo me veio agora. Gertrudes."

O livro vira a página

Final II
Dias Perfeitos

O Abismo

Há histórias que não sobrevivem.
Que apenas desaparecem para um lugar escuro, com quem as viveu.

"A loucura não avisa. Instala-se, e quando damos por ela, já é tarde demais."

Téo é interrogado pelo advogado. E desta vez, a sensação é diferente — mais apertada, mais próxima do fim. Apercebe-se de que está prestes a ser descoberto. A agonia e o desespero que durante tanto tempo manteve comprimidos dentro de si explodem numa paranóia que já não consegue controlar.

Volta ao hospital. Desliga a máquina de respirar de Clarice. Tal como no outro final, os médicos interpretam o gesto como uma tentativa de ajudar — um estudante de medicina age por instinto, não por crueldade. A culpa, dizem, não é dele.

"Mas desta vez, Clarice não resistiu."

Durante um almoço entre Téo e a mãe de Clarice, toca o telemóvel. Do outro lado da linha, a notícia: Clarice não estava bem e foi para a sala de cirurgia. Desta vez, não houve regresso. Uma paragem respiratória grave. E a morte chegou silenciosa, como sempre chega — sem avisar, sem pedir licença.

· · ·

Téo entra em depressão. Não aceita a morte de Clarice — porque a sua mente não foi construída para aceitar perdas. Cada objeto da casa é um acusador silencioso. Cada canto, um eco do que foi.

Patrícia — a mãe — começa a confrontá-lo. Descobre que ele matou Sansão. O cão. A faísca que falta para que tudo arda. Téo enlouquece. Mata a mãe por asfixiação.

✦ ✦ ✦
"A violência de Téo não é raiva. É a lógica final de alguém que nunca aprendeu a perder — nem pessoas, nem ilusões."

Conduz então até ao cemitério onde Clarice foi enterrada. Mata o guarda para poder entrar. Desenterra Clarice. Coloca-a no carro, com a delicadeza absurda de quem pega numa coisa frágil. E parte.

✦ ✦ ✦

Destino: Paraty. Para continuarem a viagem. Porque na mente de Téo, a viagem nunca terminou. Clarice está ali — fria, imóvel, mas ali. E isso é suficiente para quem nunca compreendeu onde a realidade acaba.

"Ah, Gertrudes… Minha Gertrudes…"

Fim da Obra

Dias Perfeitos é um romance de Raphael Montes que explora os limites entre amor, possessão e loucura. Dois finais, uma só obsessão.